Eu era um bom aluno. Gostava de estudar, gostava de aprender. Mas aos poucos a minha visão foi piorando — e a minha vida foi mudando junto.
Quando a pobreza roubou minha visão
Meu pai estava desempregado. Minha mãe trabalhava como faxineira num banco. A gente não tinha muito. E quando minha visão começou a falhar, não havia dinheiro para óculos.
Eu não conseguia enxergar a lousa sentado na primeira carteira. Fingia que ia jogar alguma coisa no lixo só para chegar perto o suficiente para copiar o conteúdo. Quando o professor dividia a lousa em três partes e apagava a primeira para continuar escrevendo, eu ainda não tinha terminado de copiar o início. Aquilo virou tortura.
Fui levando assim até a sétima série. Depois larguei. Não porque não queria estudar — eu queria. A pobreza me tirou essa escolha.
O caminho da rua
Sem escola, fui me envolvendo com pessoas erradas. Usei drogas. Meu pai, que estava com câncer, me expulsou de casa quando eu tinha 18 anos. Olhando para trás, acho que foi o que me salvou.
Cheguei a morar numa casa abandonada em Santana. No primeiro dia, bati fome de verdade — sem dinheiro, sem a quem recorrer. De madrugada, eu e um conhecido invadimos uma mercearia e pegamos ovos para comer.
Uma tia me resgatou. Voltei. Meu pai faleceu. No velório, meu tio me disse: "Agora você é o homem da casa." Aquilo bateu de um jeito que nenhuma palavra de adulto tinha batido antes.
O livro que mudou tudo
Para sobreviver, comecei a catar papelão e ferro velho. Uma das coisas mais valiosas que eu encontrava eram livros — papel branco, que vale mais no ferro velho que papelão comum. A primeira regra era tirar as capas antes de vender.
Num dia comum, enquanto tirava capas de um lote de livros, um título chamou minha atenção: Odisseia.
Não sei explicar por que parei para ler. Mas parei. Sentei na calçada, coloquei uma blusa na carroça para me proteger do sol, abri o prefácio — e meu cérebro ferveu. Foi a primeira vez que o conhecimento me tomou daquele jeito. Não larguei mais os livros. Passei a procurá-los na feira do rolo todo domingo, no mesmo lugar onde antes eu comprava fita de videogame.
A programação e o ENCCEJA
Em 2004, conheci um computador de verdade na casa de um amigo. Fiquei apaixonado. Com a ajuda da minha mãe, comprei um computador velho e comecei a aprender sozinho. A programação entrou pela curiosidade — um jogo que se editava via código — e nunca mais saiu.
Anos depois, durante a pandemia, percebi que precisava comprovar quem eu era. Todo mundo falava que desenvolvedor ganhava bem, mas eu não tinha nem o ensino fundamental completo. Foi quando descobri o ENCCEJA — um exame gratuito que permite certificar o ensino fundamental e médio numa única prova.
Criei um cronograma. Estudei de verdade na última semana. O que mais me preocupava era a redação — e foi justamente onde me saí melhor, graças a um canal gratuito no YouTube focado no exame. Fui o último a entregar a prova. Não estava com pressa: sabia que aquilo não era só uma prova. Era uma chance de mudar de vida.
Passei. Entrei numa faculdade. Três meses depois, consegui meu primeiro emprego como programador.
Por que o Simulado Solidário existe
Essa plataforma nasceu dessa história. Sei o que é estar do lado de fora — sem óculos, sem livros, sem acesso. Sei o que é a pobreza te tirar algo que você ama antes mesmo de você entender o que está perdendo.
O Simulado Solidário é a resposta que eu queria ter tido. Um lugar gratuito, acessível, feito para quem precisa de uma segunda chance — ou de uma primeira oportunidade real.
Se você está nessa situação hoje, saiba: é possível recomeçar. Eu sei porque precisei recomeçar.
Assista à conversa completa
Essa história foi compartilhada numa conversa com meu colega de trabalho Bruno José. Se quiser ouvir com mais detalhes e na minha própria voz, assista ao vídeo:
Assistir no YouTubeConhece alguém que precisa de uma segunda chance nos estudos?
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